
O salário mínimo necessário para garantir o sustento básico de uma família de quatro pessoas em Palmas deveria ser de R$ 6.200. A estimativa, baseada na metodologia do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), reflete o alto custo da cesta básica na capital tocantinense, que atualmente está em R$ 765,80. O valor supera em mais de quatro vezes o salário mínimo nacional, fixado em R$ 1.518, e escancara o descompasso entre o poder de compra da população e o custo real de vida em uma das cidades que mais crescem na Região Norte.
📊 Gráfico 1 – Comparativo de valores

Apesar da cesta básica ter registrado uma queda de 1,92% no último mês, passando a custar R$ 765,80, o alívio pontual nos preços não tem refletido em melhora real para as famílias. O trabalhador que recebe o piso nacional compromete 54,7% do salário líquido apenas com alimentação, o que equivale a 117 horas e 6 minutos de trabalho por mês — ou mais de 14 dias úteis de jornada.
Os produtos que mais pressionam o orçamento são carne bovina, leite longa vida e pão francês, que juntos representam mais de 40% do custo total da cesta.
🥩 Gráfico 2 – Composição estimada da cesta básica

O recuo recente no valor da cesta foi puxado por reduções nos preços do arroz, tomate e óleo de soja. Entretanto, itens com menor possibilidade de substituição seguem em alta: carne bovina subiu 1,2%, leite longa vida aumentou 0,9% e o pão francês, 0,6%.
Para a economista Jussara Lobo, Palmas sofre com uma logística cara e dependência de cadeias externas. “O arroz vem do Sul, a carne é exportada e o leite depende de poucas indústrias. Isso encarece o acesso e comprime o consumo local”, afirma.
Relatos que confirmam o impacto
Nos bairros periféricos da capital, a situação se reflete nas escolhas alimentares. O pedreiro Valdecir Dias, de 51 anos, conta que deixou de consumir carne há dois meses. “Hoje é arroz, farinha e ovo. Fruta virou lembrança”, diz. A diarista Rosa Batista, mãe de três filhos, improvisa com o pouco que pode: “Compro leite para as crianças. Os adultos almoçam tarde para aguentar só com uma refeição.”
Segundo a nutricionista Letícia Rezende, essa substituição forçada de alimentos mais nutritivos por carboidratos baratos configura um quadro de subnutrição crônica. “É a chamada fome disfarçada. Há comida, mas faltam nutrientes. Isso compromete o desenvolvimento, especialmente em crianças.”
📈 Gráfico 3 – Evolução do custo da cesta básica em 2025

Salário mínimo ideal como referência técnica
O valor de R$ 6.200 foi calculado a partir da metodologia usada pelo Dieese em São Paulo, onde a cesta básica custa R$ 896,15. A projeção para Palmas considera gastos mínimos com alimentação, moradia, transporte, educação, saúde, vestuário e lazer. Para o sociólogo Carlos Henrique Batista, o número serve como ferramenta para formular políticas públicas. “É um dado pedagógico. Mostra o quanto estamos longe de garantir uma vida minimamente digna com o salário atual.”
Discussão sobre salário regionalizado volta ao debate
Diante da defasagem, crescem os debates sobre a criação de pisos regionais ou complementos estaduais, como vales-alimentação. No Tocantins, o Consea articula com deputados um programa de compensação vinculado ao custo da cesta básica.
Principais números da pesquisa:
- Custo da cesta básica em Palmas: R$ 765,80
- Salário mínimo líquido atual: R$ 1.398,72
- Comprometimento da renda com alimentação: 54,7%
- Horas de trabalho mensais para adquirir a cesta: 117h06
- Salário mínimo ideal estimado para Palmas: R$ 6.200
- Produtos que mais pressionam: carne, leite e pão
- Acumulado de alta da cesta em 2025: 5,4%
- Alta nos últimos 12 meses: 7,8%
A estimativa de R$ 6.200 como salário mínimo necessário para uma vida digna em Palmas não é uma utopia. É um sinal de alerta técnico para governos, parlamentares e a sociedade. Enquanto o prato estiver cada vez mais vazio, qualquer discurso sobre crescimento econômico se torna, no mínimo, insuficiente.
Por: Warley Costa | Portal Imediato.





