Ultraprocessados já ocupam quase 25% do prato do brasileiro e consumo dispara no mundo inteiro

Série publicada na revista Lancet mostra avanço global desses produtos, aponta impacto direto em doenças crônicas e alerta que grandes corporações estão moldando a forma como o mundo come.
Imediato News

O brasileiro está comendo cada vez mais ultraprocessados e não é pouca coisa. Desde os anos 80, a participação desses produtos no prato do país mais que dobrou, passando de 10% para 23%. O alerta vem de uma coletânea de artigos divulgada nesta terça-feira (18), assinada por mais de 40 pesquisadores liderados por cientistas da USP.

A radiografia feita em 93 países mostra um cenário igual ou pior. O consumo cresceu em 91 deles. No Reino Unido, o índice ficou estável, mas em um patamar muito alto, com metade da dieta baseada nesses produtos. Nos Estados Unidos, o número ultrapassa 60%. Em países como Espanha, Coreia do Sul e China, o avanço foi acelerado nas últimas três décadas.

Carlos Monteiro, do Nupens da USP, que lidera o estudo, afirma que o fenômeno não é natural. É resultado de estratégia. Segundo ele, grandes corporações têm remodelado a alimentação mundial com produtos altamente rentáveis, impulsionados por marketing agressivo e pressão política que dificulta a adoção de políticas públicas de alimentação saudável. Para o pesquisador, essas empresas bloqueiam avanços importantes.

A tendência aparece em países ricos, pobres e em desenvolvimento. Primeiro cresce entre os mais abastados e depois se espalha para todos. A cultura ainda influencia. No Canadá, o índice passa de 40%. Na Itália e na Grécia, segue abaixo de 25%.

Os ultraprocessados começaram a ganhar espaço no pós-guerra em países ricos, mas viraram febre mundial nos anos 80, embalados pela globalização. E desde então caminham lado a lado com o avanço de obesidade, diabetes tipo 2, câncer colorretal e doenças inflamatórias intestinais. Em uma revisão com 104 estudos de longo prazo, 92 apontaram aumento de risco de doenças crônicas associado ao consumo desses produtos.

Os cientistas afirmam que substituir comida de verdade por ultraprocessados se tornou um dos principais motores da epidemia de doenças crônicas. E avisam que não dá mais para esperar novas pesquisas para agir. As políticas de incentivo a alimentos frescos já estão atrasadas.

A classificação NOVA, criada no Brasil em 2009, é a referência internacional que define o que é ou não ultraprocessado. Ela divide os alimentos em quatro grupos, do natural ao altamente industrializado. Os ultraprocessados são feitos para serem baratos, duráveis, práticos e viciantes, sempre com forte apelo comercial. Exemplos incluem biscoitos recheados, refrigerantes, macarrão instantâneo e iogurtes saborizados.

Entre as medidas defendidas pelos autores da pesquisa estão rótulos mais claros para aditivos, restrições à publicidade infantil, proibição desses produtos em escolas e outros espaços públicos e taxação extra para financiar a compra de alimentos frescos por famílias vulneráveis. O Brasil aparece como destaque positivo com o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que a partir do próximo ano terá 90% do cardápio baseado em alimentos frescos e minimamente processados.

A mensagem final é simples e direta. O aumento do consumo não é responsabilidade individual do consumidor. É consequência do poder econômico e político das corporações que dominam um mercado global de quase 2 trilhões de dólares e influenciam cada vez mais o que o mundo come.

Por: Warley Costa | Portal Imediato.

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