
Perder a visão representa uma mudança profunda na vida de qualquer pessoa. Além das dificuldades físicas, o processo exige adaptação emocional, aprendizado de novas habilidades e suporte especializado para que o paciente possa retomar sua rotina com autonomia. Em Araguaína, esse trabalho é desenvolvido pelo Centro Especializado em Reabilitação (CER), que oferece atendimento multiprofissional voltado à reabilitação visual e à inclusão social.
Mantido pela Prefeitura de Araguaína em parceria com o Hospital de Amor desde 2019, o CER é referência regional em reabilitação física, auditiva, intelectual e visual. A unidade atende pacientes de Araguaína e de municípios das regiões do Bico do Papagaio, Médio Norte Araguaia e Capim Dourado.
Atualmente, 19 pacientes participam do grupo de Reabilitação Visual, desenvolvendo atividades que fortalecem a independência e proporcionam mais qualidade de vida.
Atendimento vai além da assistência médica
O Serviço de Reabilitação Visual reúne uma equipe multiprofissional composta por oftalmologista, psicólogo, educador físico, pedagogos e nutricionista. Além da avaliação clínica, os pacientes recebem acompanhamento psicológico, orientação nutricional, educação em saúde, treinamento para atividades da vida diária, alfabetização em Braille e acesso a tecnologias assistivas, como lentes de aumento, bengalas articuladas e próteses oculares.
O objetivo é oferecer condições para que pessoas com baixa visão ou cegueira recuperem sua autonomia, ampliem a participação social e retomem projetos pessoais.
Recomeço após a perda da visão
Aos 20 anos, Railane Barbosa conhece de perto os desafios enfrentados por quem perde a visão. Diagnosticada ainda na infância com baixa visão causada por toxoplasmose congênita, ela sofreu descolamentos de retina nos dois olhos e perdeu totalmente a visão em 2023.
No CER, encontrou apoio para reconstruir sua rotina e recuperar a confiança.
“Quando perdi a visão fiquei muito triste. Achei que não conseguiria mais fazer muitas coisas. Aqui no CER eu reencontrei minha alegria. Aprendi Braille, fiz amigos e hoje tenho liberdade e autonomia. O atendimento e o cuidado devolveram minha autoestima. Hoje consigo fazer tudo sozinha e isso mudou completamente minha vida”, relata.
Além das aulas de Braille, Railane participa de atividades coletivas que estimulam o convívio social, a independência e o fortalecimento emocional.
Braille como ferramenta de autonomia
Responsável pelo ensino do sistema Braille, a educadora de reabilitação Josefa Nogueira, conhecida pelos pacientes como “Tia Josefa”, destaca que o aprendizado representa um novo começo para quem perdeu a visão.
“Perder a visão causa um impacto muito grande na vida das pessoas. Muitas chegam aqui abatidas, sem acreditar que podem recuperar sua independência. Ensinar o Braille significa ajudá-las a recomeçar. É como alfabetizar novamente alguém para uma nova realidade. Ver cada conquista dos pacientes é um privilégio e uma das maiores recompensas do nosso trabalho”, afirma.
Esporte e superação
Entre os pacientes atendidos está o atleta paralímpico Enzo Fernandes, de 11 anos. Diagnosticado ainda bebê com leucoencefalopatia, condição que comprometeu sua visão, ele atualmente possui cerca de 10% da capacidade visual.
Mesmo diante das limitações, encontrou no esporte uma forma de superar desafios. Campeão regional e estadual nas modalidades de pelota, arremesso de peso e corrida, Enzo já conquistou 12 medalhas em competições.
Para a mãe, Márcia Fernandes, o acompanhamento oferecido pelo CER foi fundamental para o desenvolvimento do filho.
“Quando recebi o diagnóstico do Enzo foi muito difícil. Procurei tratamento em várias cidades até chegar ao CER. Aqui encontrei acolhimento, orientação e uma equipe que acompanha toda a evolução dele. O CER foi um verdadeiro porto seguro para nossa família. Hoje vejo meu filho conquistando medalhas, realizando sonhos e mostrando que ele pode chegar muito longe”, destaca.
Como acessar o serviço
O Serviço de Reabilitação Visual é destinado a pessoas com baixa visão, cegueira ou outras condições oftalmológicas que provoquem limitações funcionais.
Para iniciar o atendimento, os moradores de Araguaína devem procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência e solicitar encaminhamento ao CER. Pacientes de outros municípios também podem ser atendidos, desde que encaminhados pela rede municipal de saúde.
Com capacidade para atender até 100 pacientes por dia, o Centro Especializado em Reabilitação consolida-se como referência regional na oferta de atendimento humanizado, promovendo inclusão, autonomia e melhores condições de vida para pessoas com deficiência.
Por: Warley Costa | Portal Imediato





