
Uma pesquisa inédita do Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info revelou um cenário preocupante sobre os impactos da menstruação na vida escolar de meninas brasileiras. Segundo o levantamento, quatro em cada dez estudantes dos ensinos fundamental e médio faltam às aulas mensalmente por causa de dores menstruais.
O estudo mostra ainda que seis em cada dez alunas que menstruam relatam sofrer com cólicas moderadas ou fortes, capazes de comprometer a rotina escolar e exigir uso de medicamentos.
A pesquisa ouviu 2.551 estudantes, além de professores e gestores escolares das redes pública e privada em todas as regiões do país. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (27), véspera do Dia Internacional da Dignidade Menstrual.
Entre os principais sintomas relatados pelas estudantes estão cólicas intensas, dores no corpo, cansaço, dores de cabeça, dor abdominal e medo de vazamentos. A falta de banheiro adequado e de produtos de higiene menstrual também aparece como motivo de ausência nas escolas.
Segundo a pesquisa, as estudantes chegam a perder cerca de dois dias de aula por mês devido aos sintomas menstruais, situação que pode gerar prejuízos no aprendizado, na participação escolar e no desenvolvimento educacional ao longo dos anos.
A líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, Sofia Reinach, alerta que o problema ainda é tratado como algo individual e naturalizado dentro das escolas.
O estudo também aponta desigualdade racial. Meninas negras faltam até uma vez e meia mais às aulas por questões menstruais do que meninas brancas. Enquanto 14,5% das estudantes negras relataram perder entre dois e cinco dias de aula por mês, entre as alunas brancas o índice ficou em 9,6%.
Apesar disso, as estudantes negras tendem a relatar menos dores intensas, o que, segundo especialistas, pode estar ligado à normalização histórica da dor entre mulheres negras.
As diferenças regionais também chamaram atenção. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, a falta de banheiros adequados e de absorventes aparece com mais força como motivo de evasão temporária das aulas.
Outro dado que preocupa os pesquisadores é a menarca precoce. Mais de 65% das meninas afirmaram ter menstruado até os 11 anos de idade, e 36,5% relataram ter tido a primeira menstruação aos 10 anos ou antes. O estudo associa a menarca precoce a maiores índices de cólicas intensas.
A pesquisa ainda destaca que a naturalização da dor menstrual pode atrasar diagnósticos importantes, como o da Endometriose, condição que afeta uma em cada dez mulheres e pode levar anos para ser descoberta.
Além das estudantes, professoras e gestoras escolares também relataram impactos das dores menstruais no trabalho. Entre as gestoras entrevistadas, 16,9% disseram já ter faltado ao trabalho por sintomas relacionados à menstruação.
O levantamento defende a criação de políticas de saúde menstrual nas escolas, incluindo acesso a absorventes, infraestrutura adequada, orientação pedagógica e protocolos para acolhimento das estudantes.
Os pesquisadores também reforçam a necessidade de incluir os meninos nas discussões sobre menstruação para combater tabus e ampliar a rede de apoio dentro do ambiente escolar.
Por: Warley Costa | Portal Imediato





