
Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, foi encontrado morto na manhã de segunda-feira (3) dentro de uma casa na região norte de Palmas. A criança havia passado o fim de semana com o pai, o advogado Igor Gustavo Veloso de Sousa, de 33 anos, que procurou a Polícia Civil horas depois para comunicar o óbito.
A primeira versão apresentada pelo pai indicava que o menino havia sofrido um princípio de afogamento na piscina da residência no domingo (2). No entanto, os exames realizados no corpo não identificaram sinais compatíveis com afogamento e apontaram que Gustavo sofreu múltiplas agressões.
O caso passou a ser investigado pela 1ª Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Palmas.
Domingo: criança vai passar o fim de semana com o pai
Igor Gustavo e Sabrina da Silva Feitosa, mãe do menino, não viviam juntos e enfrentavam disputas judiciais relacionadas à convivência com a criança e ao pagamento de pensão.
Um vídeo gravado antes de Gustavo ser levado para a casa do pai mostra o menino chorando e resistindo à visita. Ao ser questionado pela mãe sobre o motivo, ele afirma que era agredido pelo pai.
Segundo os advogados de Sabrina, ela mantinha a convivência porque temia ser acusada de alienação parental caso impedisse as visitas sem uma decisão judicial. A representante da família também afirmou que a mãe já havia relatado ocasiões em que o filho retornava machucado.
Ainda conforme a defesa da mãe, havia um histórico de ameaças durante o relacionamento. Um registro relacionado a ameaças feitas em 2023 passou a integrar o contexto analisado durante a investigação.
Versão apresentada pelo pai
A defesa de Igor afirma que ele estava com o filho na área de lazer da casa quando percebeu que a criança estava em uma aparente situação de afogamento.
Segundo os advogados, o pai retirou o menino da água, iniciou os primeiros socorros e observou que ele voltou a reagir depois de expelir a água ingerida. Como teria apresentado uma melhora, Gustavo tomou banho e foi colocado para descansar.
Na manhã seguinte, Igor teria percebido que o filho não respondia e não apresentava sinais vitais. A defesa afirma que ele ficou abalado, deixou a residência e, posteriormente, apresentou-se espontaneamente à polícia.
Segunda-feira: pai comunica a morte
A Secretaria da Segurança Pública informou que Igor procurou a 1ª Central de Atendimento da Polícia Civil durante a tarde de segunda-feira. Ele contou que havia encontrado o menino morto pela manhã, mas que o abalo emocional teria impedido que procurasse as autoridades imediatamente.
O advogado prestou depoimento, entregou as chaves do imóvel para os trabalhos da perícia e foi liberado. Naquele momento, não havia ordem judicial de prisão contra ele.
A Polícia Científica examinou a residência e o corpo de Gustavo. Familiares e testemunhas também começaram a ser ouvidos ainda naquela noite.
Os primeiros levantamentos fizeram com que o caso deixasse de ser tratado como uma possível fatalidade e passasse a ser apurado como morte suspeita. A Polícia Civil informou que havia elementos de violência e começou a investigar a possível participação do pai.
Exames afastam hipótese de afogamento
A análise inicial do Instituto Médico Legal apontou que Gustavo sofreu hemorragias interna e externa, além de laceração intestinal e lesões em diferentes partes do corpo, incluindo a face.
O diretor do IML de Palmas, médico legista Eduardo Godinho, afirmou que o estado em que a criança chegou ao instituto era incomum e indicava violência intensa. Segundo ele, o primeiro exame não encontrou sinais de afogamento.
O laudo pericial ao qual a reportagem teve acesso descreveu que a morte ocorreu em um contexto de crueldade e multiplicidade de lesões. O documento também registrou ferimentos na região anal e intestinal e apontou inicialmente a ocorrência de violência sexual.
Posteriormente, a Polícia Civil explicou que a natureza exata dessas lesões ainda dependia de análises complementares. Foram solicitados exames para pesquisa de material biológico, álcool e drogas.
Polícia diz que versão inicial poderia não se sustentar
Com o avanço da perícia, o delegado Eduardo Menezes afirmou que os elementos encontrados colocavam em dúvida a narrativa de afogamento apresentada inicialmente.
A polícia, porém, ainda precisava reunir depoimentos, resultados laboratoriais e outras provas antes de definir a dinâmica completa, a autoria e o enquadramento jurídico do caso.
O pai continuou sendo investigado, mas permaneceu em liberdade durante os primeiros dias da apuração.
Vídeo passa a fazer parte do caso
A gravação feita antes da visita à casa do pai ganhou relevância após a divulgação dos resultados preliminares da perícia. Nas imagens, Gustavo demonstra medo e relata que era agredido.
A defesa da mãe afirmou que ela já havia mencionado situações em que a criança voltava das visitas com marcas, mas que as ameaças atribuídas ao ex-companheiro provocavam medo e dificultavam a adoção de medidas mais firmes.
A Polícia Civil não divulgou se o vídeo foi usado isoladamente para fundamentar alguma medida judicial. A gravação, no entanto, passou a fazer parte do conjunto de informações analisadas pelos investigadores.
Despedida sob comoção
Gustavo foi velado e sepultado na terça-feira (4), em Palmas. Familiares e amigos acompanharam a cerimônia e cobraram esclarecimentos sobre a morte.
Enquanto a família se despedia da criança, a DHPP continuava a ouvir testemunhas e reunir provas. Os resultados da necropsia alteraram o rumo da investigação e levaram a polícia a aprofundar a apuração sobre o que ocorreu dentro da casa durante o fim de semana.
Por: Warley Costa | Portal Imediato





