
Enquanto as bandeiras subiam e os discursos inflamados tomavam conta das convenções partidárias no Tocantins, o chão do Estado parecia ceder sob o peso de duas tragédias que não podem, nem devem, ser varridas para debaixo do tapete da política.
Em Araguaína, uma mulher teve a vida ceifada pelo ex-companheiro. O mais estarrecedor não foi apenas a violência do golpe, mas a frieza de quem, ao longe, filmou e narrou a cena como quem comenta um lance de futebol. O celular na mão substituiu a coragem de intervir ou o simples ato de gritar por socorro. A violência virou espetáculo; o sangue, entretenimento. Enquanto a vítima agonizava, a indiferença gritava mais alto do que qualquer pedido de ajuda.

Na capital, Palmas, o pequeno Gustavo, de apenas 3 anos, pagou com a própria existência a falha de um sistema que não protegeu seu lar. Um pai, que deveria ser o escudo, tornou-se o algoz. Que tipo de sociedade permite que um homem destrua a própria cria? Uma sociedade que trata a segurança pública como um custo, e não como a mais urgente das prioridades.
Esses dois casos não são meros números em um relatório policial. São vidas que escorrem entre os dedos de um poder público que insiste em empurrar a pauta da segurança com a barriga.
Como cobrar leis mais duras se a fiscalização é falha e as penas parecem nunca chegar? Como pedir campanhas efetivas de proteção à mulher, à criança e ao idoso se a verba destinada a esses grupos é ínfima perto do orçamento de publicidade institucional?
E, sobretudo, como garantir o direito de ir e vir se o Tocantins ostenta, com vergonha, o menor contingente de policiais militares do Brasil? Nossos heróis de farda estão sobrecarregados, esticados como elásticos prestes a se romper. Pedem-se mais viaturas, mais armas, mas, principalmente, mais gente — profissionais preparados para chegar antes que a faca desça, antes que os gritos cessem.
Aos senhores e senhoras deputados e deputadas, prefeitos, senadores, vereadores e candidatos que sorriem nas fotos de convenção: olhem para trás. Vejam o corpo estendido da mulher em Araguaína e o caixão minúsculo de Gustavo, em Palmas.
Essa campanha não pode ser apenas pelo pleito, mas pela vida. Chega de promessas genéricas. Queremos efetivo nas ruas, delegacias equipadas, campanhas incessantes de conscientização e, acima de tudo, um choque de gestão que transforme dor em ação.
O Tocantins não quer apenas festa e discurso. O Tocantins clama por justiça, e a justiça começa onde a lei se encontra com a proteção. Quantas convenções serão necessárias até que a violência pare de ser a pauta principal do nosso noticiário?
Por: Silene Borges | Portal Imediato





